Memória e documento: a genealogia de Tiradentes
Resumo: Este artigo examina criticamente a construção e a persistência da narrativa que atribui à família Almeida Beltrão a condição de descendente direta de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, no oeste de Minas Gerais. Com base na análise sistemática de fontes primárias, registros paroquiais, autos judiciais, recenseamentos, testamentos e documentação administrativa, demonstra-se a inconsistência dessa conexão genealógica e sustenta-se, com relevante apoio documental, a filiação de João de Almeida Beltrão ao Cadete José Pereira de Almeida Beltrão, e não ao Inconfidente que assumiu legalmente a paternidade de Joaquina, prima de João. Além da controvérsia genealógica, o estudo investiga os processos de construção da memória histórica e os usos políticos desta conexão no passado, evidenciando como a figura de Tiradentes foi progressivamente ressignificada, apropriada e institucionalizada, sobretudo ao longo do século XX. Argumenta-se que o reconhecimento genealógico desse personagem no final dos anos 1960, através de decreto presidencial, não resultou da acumulação de evidências históricas, mas de sua funcionalidade simbólica, operando como mecanismo de legitimação identitária e de neutralização de seu conteúdo político original. Ao distinguir entre documentação, tradição memorial e reconhecimento estatal, o artigo reafirma a centralidade da crítica historiográfica diante de narrativas consolidadas e oficialmente sancionadas.
Palavras-chave: Tiradentes. Almeida Beltrão. Memória histórica. Genealogia. Quartel Geral. Historiografia.
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Essa pesquisa é parte do IN2PAST.BR, o INCT sobre Patrimônio Cultural e Natural com verba do CNPq (APQ 406864/2022-5) e FAPEMIG (APQ 04006-24). Somos muito gratos aos colegas do Instituto Diadorim e da Sol Crescente pelo apoio e discussões prévias sobre história da região.
PHA escreveu a versão inicial do manuscrito. PHA e FRS contribuíram igualmente com a conceitualização, pesquisa, revisão e escrita da versão final do artigo.
Os autores declaram que não há conflito de interesses.
