Entre o Paranaíba e Lisboa: genealogia crítica e persistência Tupiniquim nas fricções do colonialismo vicentino
Resumo: Este artigo toma como estudo de caso os papéis de defesa do capitão-mor de São Vicente João Pereira de Sousa e o processo inquisitorial instaurado contra ele em Lisboa, produzidos no contexto dos conflitos no rio Paranaíba, no final do século XVI. A partir desse corpus, propõe uma crítica à genealogia paulista, deslocando o foco das linhagens lineares para os silêncios, cortes e apagamentos presentes nas histórias familiares. Em diálogo com os estudos sobre persistência Tupiniquim, política da consideração e reciprocidade, examina situações em que alianças e obrigações foram negociadas, tensionadas ou rompidas pela guerra, pela captura e pela disputa de jurisdições. O cruzamento desses documentos permite reconstruir redes políticas, territorialidades e trajetórias de mulheres e homens indígenas envolvidos em fugas, denúncias e cativeiros. Argumenta-se que as casas vicentinas se formaram no interior de redes de parentesco, trabalho e aliança, continuamente reconfiguradas por conflitos, deslocamentos e disputas de autoridade. Os autos revelam uma sociedade produzida por relações instáveis, na qual a persistência Tupiniquim atravessou arenas jurídicas, redes familiares, aldeias e campos de guerra, manifestando-se tanto na manutenção cotidiana de vínculos e conhecimentos quanto em ações deliberadas diante das pressões coloniais.
Palavras-chave: São Vicente. História Indígena. Paranaíba. Parentesco. Colonialismo.
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