“Por motivo de moléstia que ainda está sofrendo”: as condições de saúde de senhores de escravizados como elemento discursivo em petições em Pernambuco na segunda metade do século XIX (1871–1887)
Resumo: Este artigo analisa o uso de uma “retórica do adoecimento” em petições encaminhadas às autoridades provinciais de Pernambuco, na segunda metade do século XIX, elaboradas por senhores de escravizados em um contexto de intensificação da fiscalização estatal após a promulgação da Lei do Ventre Livre (1871). Partindo do diálogo entre a historiografia da escravidão e os aportes teóricos da história das doenças, o estudo investiga como narrativas de enfermidade, sofrimento e fragilidade corporal foram mobilizadas como estratégias discursivas para justificar omissões legais, especialmente no que se refere à matrícula de ingênuos. A análise evidencia que o adoecer, longe de constituir apenas uma condição biológica, operou como um recurso político, capaz de produzir legitimidade, suscitar empatia e deslocar o debate jurídico para o campo moral. Ao acionar a “voz do enfermo” e recorrer tanto a terminologias imprecisas quanto a diagnósticos reconhecidos pela medicina do período, os peticionários transformaram o corpo adoecido em argumento de negociação com o Estado imperial. Os resultados alcançados possibilitaram compreender as petições como arenas de disputa simbólica e política, nas quais as condições de saúde, expressas por meio de narrativas, articulavam-se às estratégias senhoriais de resistência diante do processo de desintegração da ordem escravista.
Palavras-chave: Retórica do adoecimento. Escravidão. Lei do Ventre Livre. Petições. Voz do enfermo.
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