Necrologia ludovicense: a morte entre os tradicionais costumes fúnebres e os novos preceitos médico-higienistas em São Luís (1850–1860)
Resumo: Este artigo investiga as transformações nas atitudes e representações sociais diante da morte em São Luís na segunda metade do século XIX, com foco no período de 1850 a 1860. Partindo da análise de periódicos locais: Diário do Maranhão, Publicador Maranhense e O Globo, bem como de relatórios provinciais e almanaques, argumenta-se que este foi um período decisivo para a secularização da morte na capital maranhense. A recorrência de epidemias, notadamente a de bexigas (varíola), atuou como um catalisador para a implementação de um novo regime de cuidados com os mortos, pautado pela higiene pública e pela ciência médica. Este processo se caracterizou por uma dupla face: a medicalização do corpo social, que demandou o afastamento e o silenciamento dos cadáveres, e a consequente transformação da morte em um dado estatístico, esvaziando-a progressivamente de seu conteúdo ritualístico e comunitário. Conclui-se que a década de 1850 legou à sociedade ludovicense uma morte terceirizada, coletivizada nos cemitérios públicos e silenciada pela imprensa e pelos regulamentos sanitários.
Palavras-chave: História da Morte. Secularização. São Luís. Século XIX. Epidemias.
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