Editorial
A pandemia de COVID-19 (causada pelo vírus SARS-CoV-2), vivenciada entre 2020 e 2022, provocou significativas transformações no cotidiano das sociedades em escala global, alterando rotinas, formas de sociabilidade e relações de trabalho, além de impactar diretamente as percepções sobre saúde e doença. Diante do cenário de calamidade pública, ocorreu um processo de desorganização e, consequentemente, de reorganização social, em virtude dos protocolos sanitários que impuseram, entre outras medidas, o isolamento social. Nesse contexto, tornou-se necessário compreender a doença, conforme proposto no âmbito da História, não apenas como evento biológico, mas também como fenômeno social (REVEL; PETER, 1976; LE GOFF, 1985; PORTER, 1992).
A experiência coletiva da pandemia evidenciou como fatores políticos, econômicos e sociais influenciam tanto a disseminação de informações quanto às estratégias de enfrentamento das enfermidades, reforçando a relevância de abordagens interdisciplinares, sobretudo aquelas que dialogam com a perspectiva histórica, para a compreensão desses processos. Nesse contexto, historiadores foram frequentemente convocados a se posicionar, por serem considerados, entre diversos profissionais, aqueles capazes de oferecer respostas a questionamentos, sobretudo de natureza histórica, formulados pela sociedade.
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Referências
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