A pandemia de COVID-19 (2020–2022) provocou profundas transformações sociais, alterando rotinas, formas de convivência e relações de trabalho, além de evidenciar a necessidade de compreender a doença não apenas como fenômeno biológico, mas também social. Nesse contexto, fatores políticos, econômicos e culturais mostraram-se decisivos tanto na disseminação de informações quanto nas estratégias de enfrentamento, impulsionando abordagens interdisciplinares e ampliando o papel dos historiadores no debate público. Paralelamente, houve um crescimento expressivo das pesquisas e discussões sobre doenças em meios acadêmicos, na imprensa e nas redes sociais, consolidando a História da Saúde e das Doenças como um campo relevante no Brasil, cuja formação remonta à história da medicina do início do século XX e foi posteriormente renovada por influências teóricas como as de Michel Foucault e pelas abordagens da história social e cultural a partir dos anos 1990.
Esse campo expandiu-se por meio de programas de pós-graduação, revistas, coleções editoriais e eventos acadêmicos, fortalecendo análises que compreendem saúde e doença como fenômenos historicamente construídos e atravessados por relações de poder, cultura e sociedade. O dossiê apresentado reflete essa diversidade ao reunir estudos que exploram diferentes contextos — do período colonial ao contemporâneo — e temas como epidemias, escravidão, práticas de cura, medicalização, gênero e políticas sanitárias. Em conjunto, os artigos demonstram como o adoecimento ultrapassa a dimensão biológica, articulando-se a disputas simbólicas, estratégias de poder e experiências sociais, contribuindo para ampliar o entendimento histórico e contemporâneo das relações entre saúde, doença, saberes, práticas instituições e sujeitos no Brasil.
Sumário
Editorial
Editorial
por jonas clevison pereira de melo júnior, cássia regina da silva rodrigues de souza e thayane lopes oliveira
Dossiê História da saúde e das doenças:saberes, práticas, instituições e sujeitos
Entre o clima e o corpo: saúde, doença e experiência da viagem nos relatos de Richard Francis Burton sobre o Brasil no século XIX
por leonildo josé figueira
Necrologia ludovicense: a morte entre os tradicionais costumes fúnebres e os novos preceitos médico-higienistas em São Luís (1850–1860)
por allef gustavo silva dos santos
Unguentos, tônicos e chás: a venda da cura “milagrosa” na imprensa carioca do século XIX
por cristina antunes divano cunha
O “amargozo” veneno da escravidão: envenenamento, doenças e cura no Rio de Janeiro (1835–1888)
por igor bruno dias
“Por motivo de moléstia que ainda está sofrendo”: as condições de saúde de senhores de escravizados como elemento discursivo em petições em Pernambuco na segunda metade do século XIX (1871–1887)
por joyce conceição de mesquita e jonas clevison pereira de melo júnior
As epidemias no sertão como fator prepoderante de resistência em Canudos
por maria aparecida do nascimento silva
Cuidar em tempos de escassez: o serviço das comissões de socorro diante da seca de 1888–1889 na Colônia São Pedro de Alcântara
por rakell milena osório silva e joseanne zingleara soares marinho
Um hospital da fábrica ou um hospital na fábrica? O Hospital Dr. Pacífico Mascarenhas e sua atuação para além da vila operária do Cedro (1872–1953)
por maria magna da silva moreira
Epidemia de varíola nos sertões da Bahia: coronelismo, trabalho do cuidado e medicina (1919–1920)
por cleide de lima chaves, ana flávia almeida santana e samara alves rocha
Os caminhos da saúde: saber médico e as imagens do feminino no Diario de Pernambuco (1930–1940)
por jusciellen ketlen barbosa de frança e ana clara farias brito
Leprosário São Francisco de Assis: Uma análise do arquivo médico produzido em um espaço isolacionista. (1926–1986)
por isa antunes e mariana santos
Entrevista
Escravidão, epidemias e resistências indígenas na Amazônia Colonial: entrevista com o historiador Décio de Alencar Guzmán
por ejhon lucas dias costa e jonas clevison pereira de melo júnior
